Yuri Muniz

Como consumir produtivamente

Publicado em 9 de março de 2026

Se você não controla o que consome, você não controla quem você é.

Quantas horas você passou olhando para uma tela hoje? Quem você seria daqui a um ano se todas essas horas fossem usadas para fazer o que você deseja? Se você não soube responder, talvez esse seja o problema.

O brasileiro passa, em média, umas 5 horas por dia no celular. Numa semana, isso dá mais de um dia e meio. Num mês, quase uma semana inteira. Num ano, dois meses e meio rolando o feed e respondendo mensagens. Se esse tempo não for usado com alguma inteligência, a gente acaba com uma vida sem personalidade própria, moldada pelos algoritmos que escolhem o que vamos consumir em seguida.

O desejo é imitado

É fácil acreditar que estamos no controle. Você olha para as músicas que escuta, o último livro que comprou, a viagem que quer muito fazer, e acha que são escolhas suas.

O filósofo René Girard discordaria. Para ele, o desejo humano é mimético: a gente não deseja o que quer, quando quer, do jeito que quer. O desejo surge quando vemos outra pessoa desejando ou possuindo alguma coisa. A banda que você curte, o livro e a viagem vieram de observar alguém que já queria ou já tinha aquilo.

Antigamente esses modelos estavam dentro de casa: pais, família, a comunidade em volta. Hoje passamos mais tempo consumindo do que convivendo com outras pessoas. Então quanta autonomia já não perdemos deixando os algoritmos escolherem com o que passamos o tempo?

Não dá para medir o impacto disso até aqui. Mas dá para mudar o que consumimos daqui para frente. Foi entender essa ideia que me fez ver como é urgente retomar o controle do consumo diário.

1. Saiba quem você quer ser

O primeiro passo é um exercício de autoconhecimento: o que você quer ser daqui a um mês, um ano, cinco anos? Pode ser difícil, dependendo das referências que você tem hoje, mas todo o resto depende disso.

Comece pelo simples. Pense nas atividades que gostaria de desenvolver e, com o tempo, vá montando um personagem com as características que você imagina para o seu futuro.

O meu, numa versão bem simplificada: quero ser alguém que escreve bem, que tem um trabalho criativo que sustenta minha família com conforto e que tem tempo de qualidade para estudar com constância os assuntos de que gosto. Não sou isso hoje. É o que eu quero ser.

Se os desejos são moldados pelo que consumimos, a batalha principal é garantir que o que consumimos esteja de acordo com o que queremos de verdade.

2. Fuja dos algoritmos

O algoritmo escolhe o que você vai ver em seguida, e as sugestões sempre ficam dentro da caixinha do que você já consumiu. Se você está numa sequência ruim, vai afundando cada vez mais. As novidades não aparecem porque são boas. Elas só seguem o que você viu até ali.

Rolar o feed do Instagram é consumo passivo: você deixa a ferramenta decidir o próximo conteúdo. Abrir a página inicial da Netflix ou do YouTube é a mesma coisa.

Por isso o consumo ativo é indispensável. Em vez de deixar o algoritmo escolher, saiba exatamente o que você quer ouvir, assistir ou ler em seguida.

Eu faço assim: tenho uma lista no Obsidian onde coloco tudo que encontro pela internet, e uma vez por semana passo um filtro. Algumas coisas ficam, outras vão embora, mas toda semana existe uma curadoria para que meus momentos de consumo estejam alinhados com o que eu me permiti consumir. Não fico refém de descobrir coisas no feed ou na página inicial. Consigo explorar mídias novas, fontes diferentes, e isso muda a forma como aprendo e descubro assuntos.

3. Entre na toca do coelho

A maravilha do consumo ativo é que você entra na toca do coelho.

Primeiro você encontra algo que te interessa e que está alinhado com quem você quer ser. Depois percebe que quem criou aquilo provavelmente tem na vida alguns dos aspectos que você listou no primeiro passo. Muitas vezes você descobre até perspectivas novas sobre quem pode ser, que ainda não tinham passado pela sua cabeça.

É o efeito mimético de novo: você passa a desejar o que aquele criador tem ou é. A diferença é que agora você faz isso de forma consciente. O controle é muito maior, e o consumo fica mais saudável.

Dá para levar isso mais longe. Quem produz também está sujeito às mesmas pressões miméticas que você. Então, quem influencia a sua influência?

Quando você vai atrás das referências de quem você consome, seus horizontes se expandem. O consumo ativo vira um arsenal, um banco de boas referências para os momentos de tédio. E quando ir atrás da fonte vira rotina, a descoberta que antes era feita pelo algoritmo passa a ser sua, guiada pelo que você acredita hoje e por quem você quer ser.

4. Crie no lugar de consumir

Esse último passo mudou completamente minha opinião sobre a qualidade do que eu consumo, porque aqui a gente tira a máscara de consumidor e vira criador.

Quando você cria, entende a dificuldade de colocar algo relevante no papel. Percebe que algumas coisas são fáceis de fazer e outras são difíceis, complexas, exigem muito tempo de estudo. Você fica mais crítico e passa a enxergar a intenção por trás do que é produzido.

E vê, na prática, que a maioria dos conteúdos só existe por existir. Querem sua atenção, seu like, sua adoração. Não entregam nada de valor, só te deixam esperando o próximo vídeo, a próxima risada, o próximo tempo perdido. Podem ter espaço na sua vida como entretenimento, mas são perigosos quando ocupam a maior parte do dia.

Esse é o maior desafio. Você só consome produtivamente quando entende que não precisa ser produtivo enquanto consome, nem se preocupar com isso. Precisa apenas se expor às coisas certas.

Este texto é um lembrete pessoal que escrevi depois de assistir a uma aula e ler um ensaio do Rafael Censon.

Versão em texto do vídeo Como consumir produtivamente.