Yuri Muniz

É assim mesmo o futuro do YouTube?

Publicado em 17 de março de 2026

É assim mesmo o futuro da criação de conteúdo na internet?

Criamos títulos que sabemos que são falsos. Editamos para que as pessoas fiquem tão estimuladas que não conseguem reagir. Colocamos outros vídeos rodando dentro dos nossos para segurar a atenção.

Eu queria dizer que estou acima disso, mas não estou. Já fiz mais thumbnails com careta do que gostaria. Quando digo “nós”, me incluo.

Como a gente sai daqui? É possível que o YouTube seja mais do que cópia, um lugar onde cada dia surgem mais vídeos e todos são iguais, onde é preciso produzir coisas cada vez maiores e mais intensas?

A resposta mais rápida, e provavelmente a que você está pensando agora, é seguir o algoritmo. Acreditei nisso por muito tempo. Seguir o algoritmo é uma boa ideia, mas olhar para ele não explica para onde estamos indo. No máximo explica como chegamos até aqui.

Hoje, criar no YouTube gira em torno de três desafios: a expectativa do espetáculo, a simplicidade inalcançável e a ladainha do bom conteúdo. Se continuar assim, os vídeos vão ficar cada vez maiores até não ser mais possível simplesmente começar.

A expectativa do espetáculo

O senso comum do YouTube produziu uma geração de vídeos praticamente indistinguíveis, feitos para explorar o algoritmo e fabricar o próximo youtuber de sucesso. Somos viciados em resultado. Sempre que um vídeo viraliza, sempre que aparece um outlier ou uma trend nova, a gente tenta replicar.

Pouco importa se funciona para você. A gente ouviu dizer que é assim que se produz e tenta fazer mais vídeos, vídeos maiores, ideias mais mirabolantes. Esse jeito de criar cabe numa embalagem bonita, fácil de vender por qualquer guru que diga que a chave para crescer é modelar o que já funcionou.

É simples, mas não é verdade. Olhar o que já funcionou nunca vai ser uma fórmula matemática. Modelar um youtuber famoso não te dá os resultados dele.

Pense no MrBeast. Ele faz um vídeo de “1 dólar contra não sei quantos milhões”, e o senso comum conclui que esse é o formato que funciona. Surgem dezenas de cópias. Algumas até fazem números grandes, mas a maioria não tem condição nem de entender o que foi feito ali. E o próprio MrBeast sabe que explorar demais um formato não garante a qualidade que ele quer. Ele vai mudar, dar um passo à frente, porque não está olhando para o que a plataforma mostra. Ele tem outros objetivos.

O exemplo dele deixa clara a impressão de que tudo no YouTube precisa ser espetáculo: números enormes, desafios impensáveis, thumbnails exageradas. O espetáculo traz mais visualizações, mas também te obriga a fazer tudo cada vez maior. Poucos olham com sinceridade para um vídeo e perguntam por que aquele título tem tanto apelo, por que aquela edição faz sucesso, se faz sentido ou não modelar aquela ideia.

A simplicidade inalcançável

Dois acontecimentos recentes mostram o contraste do que o YouTube pode estar virando.

O primeiro é o crescimento do Sam Sulek. Ver um canal crescer tanto com o custo de produção que ele tem é, no mínimo, curioso. Ele conversa com a câmera sobre treino, dieta e rotina, como se a gente só estivesse acompanhando mais um dia da vida dele.

O segundo é um post do próprio MrBeast no X. Ele contou que, no último ano, diminuiu o ritmo dos vídeos, focou em storytelling, deixou as cenas respirarem, gritou menos, mostrou mais personalidade, fez vídeos mais longos, e as visualizações dispararam. E recomendou aos colegas largar a era do conteúdo hiper-rápido.

É aí que o YouTube gira a cabeça. Começam a surgir mil formas de replicar esses “novos formatos de sucesso”. Vídeos que olham para casos isolados, simplificam todo o processo de criação e te entregam a nova fórmula para explodir. Isso não é real. Essa simplicidade não existe.

A ladainha do bom conteúdo

O problema é que, em vez de ignorar parte disso, a gente se convence (pelos outros criadores, pelos colegas, pela cultura da internet) de que precisa encaixar o conteúdo nessas caixinhas. Como se fosse uma obrigação de quem cria: quem não sabe as últimas atualizações e tendências é ignorante, atrasado, ineficiente.

Ao mesmo tempo, a gente quer que os vídeos cheguem a mais gente. Temos uma paixão, um conteúdo em que acreditamos e que sabemos que pode fazer bem para quem assiste. Então, devagar, vamos adaptando a mensagem ao que parece fazer sentido para a plataforma distribuir, seguindo regras que existem mas que ninguém criou. E vamos tirando pequenos blocos da nossa personalidade em troca de crescimento.

Junte isso com a ideia de que quanto maior o espetáculo, mais rápido se cresce, e fica fácil ver por que o futuro da criação de conteúdo não pode ser assim.

Criar com profundidade

Se o espetáculo é inviável e o que parece simples é inalcançável, como criar com qualidade e ainda ter alguma intenção de crescimento?

Se você esperava a resposta que vai te transformar no novo MrBeast, me desculpe. Nenhum texto ou vídeo vai te dar isso. Somos diferentes demais, com sentimentos, motivações e referências únicas, para alguém dizer que o seu caminho criativo é igual ao de outra pessoa. O que posso fazer é mostrar a minha perspectiva.

Alguns canais estão quebrando o status quo do YouTube na raiz, e eles me servem de inspiração, tanto para criar quanto para pensar em viver disso: Dodford, Life of Riza, Sam Sulek e o Abraham, o único brasileiro da lista. Enquanto eu ouvia a ladainha de que existe um novo estilo de edição, de que a introdução tem que ser rápida, de que é preciso modelar embalagens que já funcionaram, vi esses criadores fazendo vídeos com qualidade e com profundidade. Isso virou meu novo norte.

O que eles trazem não é um método ou um estilo de edição. É uma forma de criar adaptada à vida que eles vivem ou querem viver. Às vezes parece simples, mas é porque parece tão natural para aquele criador que a gente nem nota. Não quer dizer que seja fácil de produzir, nem que surgiu da noite para o dia. Quer dizer só que hoje funciona para eles. Olhando de fora, nunca vamos saber quanto esforço e quanto tempo custou chegar ali.

É um caminho de mão na massa. Eles fogem do fácil para entregar o que está ligado à personalidade deles. A habilidade que têm fica escancarada na tela, e as histórias que contam são o elo com a audiência que conquistaram.

Vejo isso como um amadurecimento do YouTube que conhecemos. São vídeos que fogem do raso (do conteúdo raso, das emoções rasas, das histórias rasas), e é daí que vem a profundidade. Vídeos que vão além, que tocam e despertam um interesse que, para mim, antes só aparecia em livros, filmes ou conversas da vida real.

Esse caminho não é nada fácil. Todo dia vai aparecer um desafio diferente. Você e eu vamos falhar e vamos querer desistir. Mas no outro dia a gente levanta, sacode a poeira e continua.

Versão em texto do vídeo Esse vídeo vai mudar o que você pensa sobre YouTube.